• Flavio Veloso

"Po, que vidão... Viajar para fotografar"

Atualizado: 21 de Ago de 2019



Capa sempre dá uma satisfação a mais. Capa que fica o ano todo nas bancas, é ponto extra. Mais legal ainda é quando a foto tem um monte de histórias por trás. E essa tem!


Estava no Rio, acompanhado de um grande amigo, numa missão fotográfica. Passaríamos alguns dias fotografando a cidade na intenção de fazer arquivo e tempo não estava colaborando muito. Já havíamos tido umas decepções em Paraty com a maré alta e água muito turva. No Rio, o tempo chuvoso vinha deixando a gente chateado.

Para amenizar, estávamos explorando o amanhecer e entardecer, que mesmo com o tempo sem ser ideal, rende belas imagens. Entre um e outro, estudávamos locais que gostaríamos de fotografar para nos anteciparmos a qualquer detalhe que pudéssemos. Na fotografia outdoor muita coisa não está sob seu inteiro controle. Chegar no local, às 5h da manhã, já tendo essa antevisão, ajuda bastante e é o básico do planejamento.

Esse local da foto, já estavamos de olho desde outra missão fotográfica, meses antes. Já havíamos tentado fazer essa foto sem sucesso. O melhor local para essa foto é um mirante numa estradinha secundária que liga a Barra a São Conrado. Muitas bananeiras haviam crescido abaixo do mirante com suas folhas invadindo o campo de visão e tornando a foto impossível de ser feita, comercialmente falando. Dava para tentar um composição com um moldura de folhas e coisa e tal, mas longe do ideal.

A alternativa era uma rua fechada, na Joatinga, com casas de alto luxo com a vista da foto. Convencer um morador a nos deixar entrar num casarão daqueles e ficar lá esperando a melhor luz seria algo beirando o impossível. Sem contar que muitas casas ali eram de veraneio e, portanto, fechadas.

Ainda assim resolvemos dar uma volta na rua na esperança de achar um terreno vazio que desse para fotografar dele. Como havia falado antes: rua fechada. Cancelas e grades na entrada.

De cara, esbarramos nos seguranças. Muita educação mas nenhuma chance deles me barrarem já que é uma rua pública. Não era favor nenhum me deixar entrar, eu sabia disso, os seguranças sabiam disso e educadamente, deixando isso bem claro, entramos.

Aí eu, gente boa, falador, caí na besteira de perguntar para eles se havia um local que pudesse usar para fazer essas fotos. Os olhinhos deles brilharam e me indicaram enfaticamente o "Major". E qualquer coisa que eu perguntasse, eles direcionavam o papo pro "Major".

-Mas essa casa aqui na frente, vazia, tem um angulo ótimo... tem o contato do morador? Xiii rapaz, esse cara nao vem aí faz anos, mas fala com o Major.

-E um terreno, tem algum vazio aqui na rua que de para usar? Tem não rapaz, mas fala com o "Major" que ele arruma pra vc...rs

Bom, fomos convencidos de que o Major era "o cara" e cedemos. Fui trancar o carro que havia ficado aberto estacionado do lado de fora da rua enquanto meu amigo ia ao encontro do "Major" no final da rua.

No caminho, avistamos uma casa em obra com alguns trabalhadores. ‚ngulo perfeito! Terraço com horizonte infinito saca? Sem parapeito...nada atrapalhando, nada na frente. Não pensamos duas vezes e pedimos autorização aos trabalhadores. Autorizados, entramos... para desespero dos seguranças. Estávamos encantados com a descoberta, já combinando com o mestre de obras como podíamos fazer para fotografarmos dali quando fomos surpreendidos pelos seguranças entrando na casa dizendo que não podíamos estar ali, que eles não autorizaram, que tínhamos que ver com o Major, que o Major que alugava as casas para gravações e coisa e tal... e que ele estava esperando a gente.

Estava explicado: o Major alugava casa para gravações, comerciais, filmes e com certeza eles levariam algum pela indicação. Argumentamos que eles não tinham poder sobre a casa, que o responsável pela casa havia autorizado a nossa entrada na mesma e que o Major se quisesse ganhar o nosso dinheiro que esperasse a gente chegar lá. Papo vai papo vem, discute daqui, argumenta dali e a pressão foi tão grande que o mestre de obras cedeu e disse que não podia autorizar a foto. Com a confusão, os seguranças podiam falar para o patrão (o dono da casa) e ele ser chamado a atenção. Pedimos para falar com o dono da casa e ele ligou. De novo, conversa vai conversa vem e o dono deixou mas a foto não poderia ser feita no horário do entardecer pois não teria ninguem lá e ele não poderia sair de onde estava para acompanhar a foto sendo feita no horário que queríamos. Como nós também não cedemos porque achamos que "meia foto" não se destaca em um mercado cada vez mais nivelado por baixo, abrimos mão de faze-la.

Conversamos com o mestre de obras, pedimos para ele depois, com calma, conversar com o patrão pessoalmente, explicar que não éramos aventureiros, que estavamos querendo fazer um trabalho legal e que uma vez autorizado, se ele (pedreiro) precisasse ficar depois do expediente, com certeza não ficaria no prejuízo ($anta$ palavra$ mágica$ que abrem porta$). Deixamos nosso telefone e fomos embora.

Ahhh...o tal Major alugava a casa para eventos de porte, ensaios de revista masculina, filmes, comerciais... coisa muito alem de dois fotógrafos querendo fotos de qualidade. Ele mesmo reconheceu que não teria como nos ajudar.

Fomos embora mas antes resolvemos entrar na rua de carro e ver com nossos olhos se teria algum terreno que pudessemos aproveitar. Vocês acreditam que os seguranças, depois disso tudo, vieram atrás da gente? Passavam de carro, disfarçavam, davam uma olhada no que fazíamos... e a gente lá procurando uma fresta entre uma casa e outro que desse de cara para o visual, beeeeeeeem devagar para desespero dos seguranças...rs

Indo embora, me deu um insigth de pegar o telefone do meste de obras e não ficar na dependência só dele nos ligar. Chegando na obra, encontro o mestre de obras ao telefone com o patrão, explicando o que havia acontecido. E finalmente alguma coisa deu certo!!! Ele nos passou o telefone e estávamos autorizados, bastando combinar com o mestre de obras. Feito. Os seguranças ainda questionaram mas quando souberam que estava autorizado pelo dono, viram que a casa caiu para eles.

O problema era que eram umas 13h e a foto só aconteceria lá pelas 17:45 - 18h. Não havíamos almoçado, estávamos num local sem absolutamente nenhum comércio por perto e sob hipótese nenhuma, depois de tanta confusão, daríamos chance de perdermos aquela foto saindo e voltanto depois. Nos garantimos nos biscoitos, castanhas e amendoins que haviam no carro e optamos por ficarmos esperando no local todas essas horas.

Editamos as fotos dos cartões, choveu, abriu o tempo, choveu de novo, uma nuvem ameaçou "ancorar" nos Dois Irmãos o que seria o nosso terror... até que finalmente o entardecer chegou, os carros começaram a ensaiar o seu engarrafamento habitual e as fotos começaram a nascer.

Fomos para casa de saco cheio dessas picuinhas que sempre acontecem nos grandes centros urbanos para fazer fotos, essa marcação de poder e território idiota, que estressa muito, mas felizes por termos conseguido fazer a foto, mesmo com o tempo ainda longe do ideal.

Da próxima vez que alguem falar "po, que vidão... viajar para fotografar" e "com esse equipamento até eu", juro: pago a passagem, empresto o equipamento e mando ir lá na Joatinga fotografar

E obviamente vou avisar aos meus amigos seguranças...

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Boas fotos...





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